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Artigo: Conhecendo a Área de Desenvolvimento de Games

Artigo: Conhecendo a Área de Desenvolvimento de Games

Você se decidiu em trabalhar com jogos digitais, mas você conhece bem a área? Que tal saber um pouco mais de tudo que acontece nela?

O artigo tem o objetivo de apresentar a você um panorama geral do setor, contemplando o que é um jogo digital, gêneros, discutir um pouco da história dessa indústria, processo de desenvolvimento, profissionais envolvidos e perspectivas de mercado.

São muitas informações e detalhes, mas o artigo pode ajudar você a entender um pouco mais da indústria de jogos digitais.

O que é um jogo digital?

Super Mario Bros é um jogo digital. Parece simples, mas essa pergunta é foco de diversos pesquisadores do nosso segmento. Não em simplesmente aplicar um conceito sobre o que é propriamente, porém chegar a um que seja universal – o que é bem difícil – e que o diferencie de outras mídias.

Particularmente, gosto do trabalho de Katie Salen e Eric Zimmerman nesse aspecto. No livro “Regras do Jogo”, eles fazem um levantamento de oito autores famosos da área para chegar ao conceito deles:

            “Um jogo é um sistema no qual os jogadores se envolvem em um conflito artificial, definido por regras, que implica um resultado quantificável”

Sistema, pois tem elementos inter-relacionados visando um objetivo em comum. Jogadores, devido à interação entre eles, sistema e, sobretudo, o jogar ativamente. Conflito, porque mesmo sozinho ou em equipe, envolve conflitos para atingir metas, cooperação e competição. Artificial, visto que estamos lidando com um universo fictício, que só faz sentido dentro daquele jogo. Regras, porque elas definem os limites e a estrutura do game. Por último, resultados quantificáveis, pois são fatores para definir vencedores, perdedores e dar um desfecho ao jogo. Isso é a chave que diferencia de outras atividades lúdicas.

O jogo digital é quando o jogador é transportado para esse meio eletrônico, mas os mesmos autores reforçam que, por estar em um meio digital, algumas características do jogo se tornam mais robustas e complexas. São elas: a interatividade imediata (porém restrita), manipulação da informação, sistemas complexos e automatizados, além da comunicação em rede.

É tanto tipo de jogo…

Já tentou buscar sobre gêneros de jogos, tipologia? Quantas formas diferentes de classificações achou? Creio que várias e realmente surgem cada vez mais novos tipos. Algumas formas de classificar são pela plataforma de jogo (console, PC, mobile…), outras pela comunicação em rede (multiplayer massivo online, por exemplo), algumas pelo gênero (ação, aventura, RPG…) e devem ter mais outras formas ainda. Desafio você a buscar outras.

Um artigo que é interessante nesse aspecto é o “Além do gênero: uma possibilidade para a classificação de jogos”. Os autores realmente levantaram o questionamento dessas classificações, inclusive de diferenças do mercado nacional e norte-americano. No final, eles fazem uma proposta de classificação baseada nos mecanismos dos jogos, generalizando essa miscelânea de tipos que existem no mercado. Os focos de cada um que eles simplificaram são:

  • RPG: evolução do personagem, seja ele adotado ou montado pelo jogador. Exemplo: Final Fantasy;
  • Ação: habilidade e destreza do jogador em controlar os comandos (movimentação, ataque, esquiva e defesa) com sequências ou combos. Exemplo: Street Fighter;
  • Aventura: estrutura narrativa pouco flexível, porém com mais interferência e participação do jogador comparado a jogos de ação. Histórias não lineares, mas com finais pré-determinados. Exploração do mundo e seus elementos, mas não obrigatoriedade de completar todos. Pouco foco na movimentação, coordenação motora comparado aos de ação. Muitos usam sistema de point and click. Exemplo: The Legend of Zelda;
  • Estratégia: análise e reflexão para buscar uma tática mais adequada. Liderar tropas, gerenciar recursos, conquista territorial evidente. Exemplo: Age of Empires;
  • Emulação: adota aspectos próximos da vida real ou encontrados na realidade. Falta de final e objetivos claros. Narrativa flexível. Exemplo: Need for Speed;
  • Simulação: adota aspectos idênticos ou muito precisos da vida real. Exemplo: Flight Simulator;
  • Quebra-cabeças (Puzzles): jogos que envolvem intensamente raciocínio lógico, solução de problemas ou enigmas. Exige mais tempo para agir, reflexão. Jogabilidade simples. Exemplo: Candy Crush.

Foram levados em conta os seguintes aspectos nessa classificação: “características dos desafios (para o jogador realizar a ação), liberdade/variedade de escolhas ao longo do jogo para se realizar os objetivos, jogabilidade, e a relação ação-reação”.

Também reforçam que o jogo não é exclusivo de um gênero, pois ele pode mesclar elementos de outros, mas há um predominante.

Você pode concordar ou não com a classificação deles, questionar alguns aspectos levantados, mas de fato ajuda a simplificar bastante a variedade de tipos que não param de surgir. Recomendo a leitura do artigo completo para mais explicações e detalhes.

Senta que lá vem um pouco da história dos games

Não vou me centrar aqui a contar cada data e seus acontecimentos. Essa história já é muito batida e divulgada por diversos meios. Aliás, recomendo esse do UOL para conhecer bem essa história: História do Videogame.

O que é importante aqui é por que entender esse contexto histórico como desenvolvedor de games? Para compreender o presente da indústria de jogos é uma resposta válida, mas ela se aplica a qualquer estudo do passado, não exclusivamente nesse caso. O importante é observar: como as inovações aconteciam? Em que momentos ocorreram e quais motivações? Que influências externas e internas a indústria dos games teve, gerando um novo resultado em suas obras? Como o mercado foi se moldando ao longo dos anos? Quais os desafios da época? Como era o desenvolvimento dos primeiros jogos em termos de hardware, software e equipe? Como a concorrência ajudou no desenvolvimento da indústria? E outros questionamentos interessantes.

Recomendo fortemente que você estude esse passado e tente refletir sobre essas e mais perguntas que fiz aqui.

Passo a passo o desenvolvimento de um game

O processo de desenvolvimento de um game pode variar conforme o tipo de jogo a ser desenvolvido, porte de empresa e outros aspectos. Mas existe uma estrutura comum. O tempo que cada processo pode levar e seus subprocessos é que variam.

Jeanne Novak no livro “Desenvolvimento de Games”, trata esse processo em oito passos:

1.    Conceito: fase que a ideia do jogo é criada e são delimitados alguns itens que depois darão base para o projeto na pré-produção. É gerado o Game Concept (Conceito do Jogo). Se aprovado, começa-se a próxima etapa;

2.    Pré-Produção: etapa do planejamento do jogo. É criado o Art Design Document (documento da arte do jogo) e o Game Design Document (o projeto do game);

3.    Protótipo: é a fase de construir algo concreto do jogo. Assim, pode-se perceber bem se a jogabilidade (gameplay) está bem adequada, divertida e outras características relevantes para continuar desenvolvendo esse game. Pode ser feito primeiramente de papel, maquete ou outras formas, depois indo ao software. O foco aqui não é implementar o jogo por inteiro nem seus gráficos finais, mas verificar se a experiência de jogo está adequada e se vale a pena continuar a produção;

4.    Produção: a fase mais extensa onde de fato ocorre o desenvolvimento do game, arte, música e outras produções para o jogo;

5.    Alfa: é a primeira versão. Nela, já tem o motor e interface prontos, ou seja, o game já pode ser jogado do começo ao fim. Mas existem ainda lacunas e elementos não definidos;

6.    Beta: nessa versão, o foco é resolução de problemas. O jogo já está pronto, mas precisa de um teste de qualidade;

7.    Gold: fase do jogo já pronto e aprovado por todos;

8.    Pós-Produção: lançamento de versões adicionais, correções e outros.

Creio que essa estrutura já te dá uma noção de todos esses passos para a construção de um game.

Quem são os profissionais da produção de jogos digitais?

As pessoas responsáveis pelo desenvolvimento de um jogo podem variar conforme o porte de empresa e também do game. Scott Rogers no livro “Level Up” cita alguns desses profissionais:

  • Programador: foco na funcionalidade do jogo, geração de código fonte, preocupação com IA, física, sistema de controle e outros;
  • Artista: foco na arte do jogo, como serão os personagens, cenários, objetos e outros.
  • Designer: projetista do jogo, preocupado com as regras, sistemas, design de níveis, combates, scripts etc.
  • Produtor: supervisiona a equipe toda de desenvolvimento, faz contratações, monta equipes, contribui com o game, controla cronogramas, representante ao distribuidor e à gerência;
  • Testador: fazem o teste de qualidade do jogo. Verificam bugs, questões relacionadas à diversão, usabilidade, portabilidade e outros itens;
  • Compositor: responsável pelas trilhas sonoras;
  • Sound designer: cria todos os efeitos sonoros do jogo;
  • Redator: cria os roteiros do game, textos, história.

Dependendo da complexidade do jogo, podem-se ter mais pessoas alocadas na equipe e especialistas em partes bem específicas. Por exemplo, há um programador geral, o programador de personagem, de física e outros. Assim como o level designer, designer de personagens e outras subfunções.

Também existem outras funções como gerente de produto, diretor de arte, gerente de relações públicas etc. O foco aqui foi mais nas pessoas envolvidas diretamente na produção do game.

Jogos digitais e o mercado

O entendimento desse mercado é importante para que nós tenhamos público que compre nossos jogos. É comum, quando começamos a desenvolver, darmos mais importância ao que eu quero e não ao que o cliente quer. Mas faz parte da maturidade no desenvolvimento e também assim começamos a praticar a habilidade na produção de games.

Tem frases sobre mercado de jogos que já estão bem comuns: já passou a indústria do cinema ou o público que atende não é somente crianças e por aí vai.

Em termos de mercado internacional, a indústria já está bem estruturada, com os eixos governo, educação e empresas bem integrados. Aqui no Brasil, ainda faltam alguns passos a serem dados, apesar de que essa realidade vem obtendo progressos significativos.

Recentemente o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio as Micro e Pequenas Empresas) fez estudos sobre esse mercado e levantou dados interessantíssimos sobre essa perspectiva. Recomendo leitura e acesso a esses materiais AQUI – Pesquisa Sebrae sobre Mercado de Jogos. Ele irá prover mais detalhes sobre o setor.

Pesquise mais…

Espero que essas informações tenham feito você conhecer mais sobre essa indústria. Existem diversos outros detalhes que não mencionei aqui, assim como alguns fatos podem ser questionados, mas a reflexão provocada e esse início pode te levar a aprofundar mais seus conhecimentos. Este foi um pontapé inicial para você saber sobre o que se trata essa indústria do entretenimento interativo.

Referências:

  • Novak, Jeannie. Desenvolvimento de games. São Paulo: Cengage Learning, 2010.
  • Rogers, Scott. Level UP: um guia para o design de grandes jogos. São Paulo: Blucher, 2012.
  • Salen, K.; Zimmerman, E. Regras do Jogo: fundamentos do design de jogos: principais conceitos: volume 1. São Paulo: Blucher, 2012.
  • Sato, A. K. O; Cardozo, M. V. Além do gênero: uma possibilidade para a classificação de jogos. Artigo – SBC – Proceedings of SBGames’08: Art & Design Track. Belo Horizonte, 2008.


Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira (Editor-Chefe) – Formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas (Udesc), Pós-Graduado em Docência para Educação Profissional (Senac), MBA em Game Design (Universidade Positivo) e Mestrado em Tecnologias da Informação e Comunicação (UFSC). Foi redator do portal Nintendo Blast, professor do Senac/Senai e Game Designer/Sócio-Fundador do estúdio Céu Games por 6 anos. Atualmente, é professor do Curso de Tecnologia em Jogos Digitais (UNESC) e escritor.


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