Artigo: A Jornada do Escritor: teoria e a prática nos roteiros de games

Pokémon YellowVocê já deve ter jogado diversos games com histórias envolventes. Algumas vezes elas deixaram você ansioso para saber mais ou engajado na aventura oferecida ao herói que você controla com o seu joystick.

De fato, as histórias ganham importância hoje nos jogos por estarem mais elaboradas, com personagens complexos e narrativas sem linearidade, esta última característica bem marcante nos jogos digitais e que tem raízes fortes no RPG tradicional.

Apresentarei para vocês A Jornada do Escritor, uma estrutura de narrativa que você perceberá muita aplicabilidade em roteiros de games. Vamos ver cada passo, relacionar com os jogos que conhecemos e, como estudo de caso especial, escolhi o jogo Pokémon.

Vamos viajar nessa Jornada do Herói?

 

Cinema e Jogos Digitais

Space InvadersO cinema certamente influenciou as narrativas dos games. Basta ver uma série de recursos e técnicas utilizadas, sejam as mais simples como posicionamento de câmeras. Isso ocorreu fortemente a partir do momento que os recursos de hardware puderam mais e a indústria de desenvolvedores ganhou mais maturidade. Com os roteiros ocorreu o mesmo.

Antes, os jogos eram muito focados nos mecanismos, sendo a história muito simples ou praticamente apenas um pano de fundo para aquele mecanismo de jogo. Elas não faziam muita diferença. Um clássico exemplo é o Space Invaders. Poderia ser uma pasta dental atirando nas bactérias presas aos dentes, mas escolheram uma invasão do espaço por alienígenas que você precisava deter. O que mudou? Mas foi um início certamente.

Full ThrottleCom a evolução citada, as narrativas nos games saíram de jogos puramente focados na mecânica, partindo para histórias bem contadas, criando modelos não-lineares e já é comum algumas que as decisões do jogador mudam todos os acontecimentos dela. Isso torna o jogo interessante e incentiva a exploração de possibilidades. Em histórias de games, são inesquecíveis para mim os famosos jogos point-and-click, como Dragon’s Lair, Full Throttle (veja imagem), A Maldição da Ilha dos Macacos, Sam & Max, Grim Fandango, Phantasmagoria, Gustavinho e o Enigma da Esfinge e outros. Esse gênero marcou essa evolução das narrativas nos jogos digitais. Fora outros como Maniac Mansion, por exemplo.

Também os jogadores já avaliam essa parte dos jogos e buscam histórias que mexam com os seus sentimentos, provoquem engajamento deles com o herói do game. Claro que ainda a interação é fator principal. Até porque quarenta minutos de cutscene, por exemplo, o jogador deveria então ver um filme. O jogo está longe de ser uma mídia passiva. Alguns momentos são importantes, mas sem exageros. Essa medida tem que ser muito bem pensada no roteiro. Interação ainda é a coluna que o diferencia de outras formas de mídia.

Hoje encontramos um cenário muito rico nesse quesito e você perceberá ao longo do artigo algumas referências que farei ao aplicar a Jornada do Escritor.

 

A Jornada do Escritor e O Herói de Mil Faces

Livro O Herói de Mil FacesA Jornada do Escritor

Na verdade, toda a teoria da Jornada do Escritor começou com Joseph Campbell na sua publicação chamada “O Herói das Mil Faces”. Sua estrutura relacionada à mitologia mostrou que de fato as histórias, por mais variadas que sejam, elas seguem um mesmo enredo. Tanto seguem que inspiraram diversos diretores de cinema a seguirem-na. George Lucas foi um deles. Além disso, os tipos de personagens também foram se percebendo padrões também, chamados de arquétipos.

A Jornada do HeróiDessa forma, Christopher Vogler no livro “A Jornada do Escritor” fez a sua versão dessa jornada chamando-a de “A Jornada do Herói”. Recomendo o livro fortemente. Você verá diversas menções a filmes clássicos do cinema, além de uma filmografia ampla de vários filmes que seguem esse padrão que vou explicar e mais detalhamentos. Claro que aqui vou relacionar aos games, pois é nosso foco principal, e também será mais resumido.

As etapas da Jornada do Herói seguem a estrutura da imagem ao lado. Vou explicar cada uma delas, fazendo menções a diversos games, mas usarei um do início ao fim para que perceba bem a estrutura: os jogos Pokémon.

 

A Jornada do Herói

A divisão consiste em três atos. Cada um deles será explicado a seguir.

A Jornada do Escritor - Herói

Primeiro Ato

  1. Pokémon - Início do JogoMundo Comum: é a rotina do nosso herói, a sua vida cotidiana, que nada acontece e que logo vem alguma coisa para tirá-lo desse conforto. Em Kingdom Hearts, é aquela vida de Sora com seus amigos na praia e tudo mais. Em Pokémon, é o garoto que vive com sua mãe, mas que deseja ser um treinador Pokémon;

  2. Chamado à aventura: é aquela forma de levar o nosso herói ao mundo especial, ou seja, o mundo que a aventura irá ocorrer. Em Pokémon, o garoto completa 10 anos e Professor Oak quer crianças como treinadores para terminar a Pokédex. Também pode ser um caso misterioso que envolve um ex-colega de trabalho – tudo bem que ele não sabe ainda – como em Golden Eye 007. Ou o rapto de Ashley Graham, filha do presidente dos EUA, em Resident Evil IV, levando o herói Leon ao seu resgate;

  3. Recusa ao Chamado: é aquele momento que o herói ainda não está comprometido com a aventura e reluta em participar dela, seja por insegurança, medo ou sem vontade mesmo. Muitos nem tem essa passagem e são jogados à força na aventura sem ter escolha alguma. É o caso do jogo Flashback. Perder a memória já o faz estar na aventura. A busca pela recuperação dela são recompensas dos testes ao nosso herói. Em Pokémon, a recusa é praticamente inexistente;

  4. Encontro com o Professor Oak no laboratórioEncontro com o Mentor: o mentor é aquela pessoa que orientará o nosso herói. Em desenhos, um típico mentor é aquele homem velho e sábio de barbas longas. Lembra-se do Mestre dos Magos? Ele dava as dicas, o caminho, mas eles tinham que trilhar o restante. Em games, Zelda em alguns momentos foi mentora ao Link. Já em Pokémon, o encontro com Professor Oak é esse momento. Ele dá suas dicas iniciais, artefatos e o joga na aventura. Agora é por sua conta, treinador. Durante a jornada, ele orienta o herói e o incentiva a continuar na aventura. Mas não faz por ele;

  5. Travessia do 1º Limiar: é o momento que o herói se compromete com a aventura e está em transição do mundinho pacato e comum dele ao especial da aventura. Muitos jogos fazem isso por uma mudança de mundos mesmo. Em Zelda DX, é uma mudança drástica indo a um mundo de sonhos. Em Pokémon, é o momento da saída de Pallet em busca de aventuras por Kanto.

Segundo Ato

  1. Insígnias de Kanto - PokémonTestes, aliados e inimigos: o herói, para se fortalecer, precisa passar por provações das mais diversas,obter pessoas que o ajudem nessa jornada, além de enfrentar inimigos pelo caminho. Como testes, salvar os tesouros perdidos em diversas regiões do mundo em Ducktales Remastered é um exemplo. Obter companheiros de aventura como em Final Fantasy e lutar contra chefões e naves inimigas em Firefox são exemplos, respectivamente, de aliados e inimigos. Em Pokémon, a busca pelas insígnias são testes bem claros. Os aliados são os Pokémon conquistados ao longo da jornada, aqueles que dão itens especiais como pokéflauta, bicicleta, varas de pescar. Já os inimigos mais marcantes são, certamente, a Equipe Rocket e o rival do herói;

  2. Elite dos quatro - PokémonAproximação da caverna oculta: é aquele momento em que estamos chegando muito perto do desafio mais forte, o inimigo mais perigoso. Em Pokémon, esse ponto é marcado pela Estrada da Vitória. As últimas fases de um jogo marcam bem esse momento também;

  3. Provação suprema: é o enfrentamento com o vilão ou com o desafio maior dessa história. Em Pokémon, isso ocorre ao enfrentar a Elite dos 4.

  4. Recompensa: É o fruto daquela vitória. Em Pokémon, é ser o vencedor da Elite dos 4 e enfrentar o seu rival, tornando-se um Mestre Pokémon. Mas isso tudo pode levar a um caminho de volta.

 

Terceiro Ato

  1. MewtwoCaminho de volta: É o momento de voltar. A aventura ainda não terminou. Em alguns jogos, você acha que terminou por ali o desafio, mas ele vai lá e se transforma, gerando um desafio ainda maior. Em Pokémon, isso é marcado quando Professor Oak o chama novamente ao laboratório e espera que complete a sua Pokédex. Mas também outro momento bem pertinente é o aparecimento de um Pokémon Misterioso (Mewtwo) próximo a Cerulean.

  2. Ressurreição: é o momento de renascimento do nosso herói, após essa experiência vivida na aventura. Dependendo do jogo, pode ser mesmo um momento de vida ou morte que ele sobrevive. Ele começa um processo de transformação. Ser um mestre e sua Pokédex completa, em Pokémon, é um momento marcante de renascimento;

  3. Retorno com o Elixir: são as conclusões finais da história e a reflexão do herói sobre as transformações que sofreu nessa jornada. Ele volta ao mundo comum mudado e com uma nova visão sobre ele. Com certeza, nosso treinador Pokémon volta à Pallet mais experiente como treinador Pokémon. O elixir também pode ser algo tangível como a pokédex completa.

Quando me referi ao mundo especial, significa aquele universo que faz a aventura acontecer, não necessariamente é um mundo à parte mesmo como ocorre em alguns games. Por exemplo, Kingdom Hearts tem um universo bem diferente daquele vivido por Sora no início, tanto que houve uma passagem especial para esse mundo. Agora um jogo como GTA, o mundo especial é quando são aceitas as missões incumbidas ao herói, mas fazem parte do mesmo mundo. Pokémon segue essa linha também, pois o mundo permanece o mesmo. Só se tratássemos Pallet como algo bem à parte do restante.

É importante também ressaltar que as etapas não necessariamente começam nessa ordem. Elas podem mudar ou até, em alguns casos, serem inexistentes. Um exemplo é a Recusa ao Chamado. Muitas vezes o herói está tão engajado na aventura que não passa pela sua cabeça recusá-la.

Aqui no Fanfic do nosso blog, Gamers, todos os domingos publicados, eu sigo bem essa estrutura. Acompanhe e perceba. Já estamos iniciando a parte de Travessia do 1º limiar da história.

 

Arquétipos da Jornada do Herói

 

Não só a estrutura, mas os tipos de personagens também contêm uma essência básica, sendo emanadas do herói. Os sete mais comuns, descritos por Vogler, vou descrevê-los aqui:

Treinador Red - Pokémon  Professor Oak - Pokémon   Equipe Rocket - Pokémon

  1. Herói: em geral é o principal da história. Vogler o caracteriza como aquele que mais sofre progresso na história. Típicos heróis de games: Mario em Super Mario, Link em The Legend of Zelda, Snake em Metal Gear Solid, Lara em Tomb Raider e outros. O treinador Red é um herói de Pokémon;

  2. Mentor: são aqueles que nos guiam na jornada, mas só orientam, não fazem por nós. Toadsworth em Super Mario Party funciona como um mentor. A Navi em Zelda também. Em Pokémon, os professores são clássicos mentores. Aliás, professor é um típico mentor da maior parte das histórias e da nossa vida;

  3. Fantasma de LavenderGuardião de Limiar: eles são aqueles que guardam a passagem do mundo comum ao especial. Pode ser um guarda que protege um castelo ou estrelas que bloqueiam uma passagem como em Super Mario 64. Mas pode ser um guardião o medo do herói de participar da aventura. Ou seja, podem ser coisas não tangíveis também. Um típico em Pokémon é o fantasma de Lavender que o impede de continuar;

  4. Arauto: é o mensageiro. Geralmente são aqueles que avisam o herói de sua jornada, chamam-no para ela, ou dão outras informações úteis. Dr. Light, em alguns momentos de Megaman, serve a esse arquétipo para avisar o herói dos perigos de Dr. Willy. Em Pokémon, um mensageiro típico era o celular de Pokémon Gold e Silver. Ele em alguns momentos orientava o treinador nos seus destinos;

  5. Copycat - SaffronCamaleão: é o arquétipo da transformação. Alguns deles realmente sofrem uma mudança física como Malévola em Kingdom Hearts, virando um imenso dragão negro. Mas outros podem ser bonzinhos no início e depois se revelarem vilões. Em Kirby’s Return to Dream Land, isso ocorre perfeitamente. Você acha que está ajudando alguém do bem e, no final, era o vilão da história toda. Ele se transforma. Em Pokémon, a própria evolução dos monstrinhos de bolso pode ser considerada esse arquétipo do camaleão. Mas a pequena participação de Copycat (menina ao lado), a imitadora de Saffron, é um perfeito exemplo desse arquétipo de transformação;

  6. Sombra: é o oposto do herói, o dito vilão da história. Pode ser um rival também, que compete com o herói. Em Pokémon, Gary ou Blue, dependendo da versão, pode ser essa sombra. Ou realmente um vilão típico malvado que quer impedir o herói de atingir os objetivos. Ganondorf é o típico vilão de Zelda, Bowser de Mario e Dr. Willy de Megaman;

  7. Pícaro: são aqueles personagens que divertem a história. Muitas das vezes quebram aquela coisa séria dela. Os desenhos da Disney usam isso com maestria. Em Kingdom Hearts, eles estão bem presentes como Mushu de Mulan, Timão e Pumbaa de O Rei Leão, o Gênio de Aladdin e muitos outros. Consegui identificar mais esse perfil em Pokémon Yellow com a Equipe Rocket do desenho. Com certeza, eles têm esse papel na história.

WolverineDesses arquétipos, surgem variações e refinamentos, deixando os personagens mais complexos e elaborados. É o caso dos anti-heróis como o Wolverine de X-men. Ele se for necessário matar, vai fazer tal ato como muitas vezes já ocorreram ou quase, mas também ajuda as pessoas e tem momentos de conduta boa. Isso humaniza bastante o personagem. Justiceiro é outro bom exemplo.

Outra ressalva é que os arquétipos são como máscaras que o personagem veste. Em alguns momentos ele pode ser herói, sombra, pícaro e assim por diante. Tem um que predomina, mas ele pode assumir outros no decorrer da narrativa.

 

Qual o retorno com o elixir desse artigo?

Hall of Fame - PokémonDeixo essa pergunta a você. Pode reiniciar a sua jornada em busca de mais conhecimentos. Esse foi um resumo aqui apresentado de uma teoria que utilizo bastante nas minhas histórias e roteiros. Realmente o resultado é muito bom e, avaliando narrativas de modo geral, de fato elas caem muito nesse modelo descrito por Vogler. Desafio você a perceber isso também no que você anda jogando. Recomendo novamente também o livro para mais aprofundamento do assunto. Quem sabe, você também se torna um mestre Pokémon nos roteiros? 

 

Referência principal:

  • Vogler, Christopher. A jornada do escritor: estruturas míticas para escritores.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.
  • Imagens da estrutura, atos e arquétipos do próprio autor desse livro.

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira (Editor-Chefe) – Formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Pós-Graduado em Docência para Educação Profissional, MBA em Game Design e Mestrado em Tecnologias da Informação e Comunicação. Foi redator do portal Nintendo Blast, professor de cursos técnicos e Game Designer/Sócio-Fundador do estúdio Céu Games por 6 anos. Atualmente, é professor de jogos digitais e escritor.

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