Artigo: Game Design: criando projetos de jogos digitais

Game DesignNo desenvolvimento de jogos digitais, uma das partes fundamentais para elaborar a ideia dele é o game design. Também chamado de projeto do jogo, ele dá subsídios à equipe de produção para que se promova uma experiência interessante ao seu jogador.

O artigo traz uma visão geral dessa etapa, conceituando-o, apresentando o profissional responsável e suas funções e os documentos do game design.

Quem sabe essa pode ser a etapa que você quer seguir dentro da indústria de jogos.

O que é Game Design?

Level DesignEste exemplo já até se tornou clichê, mas funciona muito bem para entender. Você já pensou como é construída uma casa? De maneira bem resumida, primeiro é feita a planta com todos os detalhes dela, medidas e outros dados relevantes. Depois, a construção começa baseada no planejado. A seguir, são feitas revisões, correções para fechar a casa e entregar ao dono.

De forma resumida, temos o projeto, desenvolvimento, controle e ações corretivas, término da casa. Em um jogo digital, segue a mesma linha, mas com outras etapas como programação, design gráfico, música etc.

O Game Design é a etapa de projeto, ou seja, pensamos e documentamos tudo que o jogo vai ter como regras, interação, controles, personagens, design de níveis etc. Essa experiência a ser promovida ao jogador é o foco dessa etapa.

O profissional responsável por essa etapa é o game designer. Dependendo do porte da empresa, pode ter mais pessoas envolvidas em subfunções dentro do game design. Um exemplo é o level designer, responsável por criar os níveis do game.

Cada jogo pode variar as necessidades a serem realizadas, estrutura do projeto, mas a essência é transformar uma ideia em uma experiência bacana ao jogador. Além disso, fazer com que a equipe consiga entender a proposta do game para partir para a produção dele.

Quais as funções do Game Designer?

Shigery Miyamoto - Game Designer da NintendoGosto muito da metáfora do Paul Schuytema quando ele fala desse tema. O autor comenta que o game designer usa muitos chapéus, inclusive certamente usados pelo game designer do primeiro Donkey Kong Shigeru Miyamoto (na foto ao lado). São eles:

  • Escrever: para redigir uma documentação, clara, objetiva e compreensível pelos profissionais da empresa. Esse último é importante, pois vale lembrar que temos pessoas com perfis diferentes no desenvolvimento. Nem sempre os jargões técnicos da computação, por exemplo, vão ser facilmente entendidos pelos músicos, designers e outros profissionais;
  • Ouvir: estar atento a equipe, sugestões, mas também dos usuários, principalmente nos testes com eles. Muitas sugestões de melhoria podem vir deles mesmos;
  • Líder de torcida: negociar as ideias, realizar cortes, se necessário, incentivar a equipe ao projeto, priorizar o que é mais importante no projeto;
  • Responsável pelas ideias: geralmente o game designer é o responsável pelas ideias dos games, seja o resultado final bom ou ruim. Avaliar as ideias dadas pela equipe e justificar a validade também são fatores importantes dele. Sessões de brainstorming ou reuniões informais podem ajudar a buscar mais nesse sentido da equipe. Isso é mais uma função do game designer;
  • Criação de novas ideias: gerar novas ideias pode ser um trabalho solitário ou em equipe. Isso depende do perfil do game designer. Mas, de fato, é 1% inspiração e 99% transpiração. Esse percentual alto é função dele a fim de esculpir a ideia bem, cujo objetivo é ajudar o jogo a sair do papel para a realidade;
  • Visualização: enxergar o gameplay, como acontecerá esse jogo. Seja mentalmente ou no papel, rabiscando… visualizar e a documentação são etapas que o game designer trabalha. Também enxergar como o jogador fará as ações, reagirá… colocar-se no lugar dele, entender que experiência você quer promover no seu game;
  • Criação de Protótipos e Scripts: gerar um protótipo da experiência do jogo e poder fazer avaliações corretivas nesse sentido. Isso é importante para que o game não vá ao desenvolvimento e sofra diversos retrabalhos por falta dessa etapa. Fora a garantia de sucesso do jogo no final.

Percebem quantas responsabilidades um game designer possui? Além disso, suas competências precisam ser multidisciplinares. Nesse sentido, ele precisa entender um pouco de computação, psicologia, design, música, artes, jornalismo, literatura, cinema e outros.

Iniciando um Game Design

Mapa Mental dos elementos que um game designer deve se preocuparA estrutura e formas de documentação variam muito de acordo com o game designer, jogo que será implementado devido ao gênero, plataforma e outras variações. Vou falar mais da minha experiência e das etapas principais:

  • Ideia: é o primeiro passo para a criação do jogo. Ela pode surgir de várias formas: i) contando a narrativa do jogo; ii) pensando nos mecanismos/regras; iii) na plataforma de inserção do game: celular, computador, web etc; ou iv) pensando no público-alvo: jogo para idosos, adolescentes que curtem anime etc;
  • Game Concept: alguns autores chamam de High Concept, mas o que deve ficar claro aqui é que esse documento lapida melhor aquela ideia. Assim, ela pode ser apresentada a um investidor, equipe de desenvolvimento ou outro interessado. São definidos o objetivo do jogo, mecanismos, gênero, plataforma, nome provisório, requisitos e outros dados relevantes, mas bem objetivo e de 1 a 2 páginas;
  • Game Design Document: após aprovação do conceito do jogo, inicia-se o documento do game design, definindo como o game será. Aqui, vou me basear na estrutura do Schuytema. São elas:
    • Visão Geral essencial: uma breve descrição do que será o jogo, seus aspectos fundamentais e o diferencial dele;
    • Contexto do game: a história do jogo, eventos anteriores que ocorreram antes de começar o game, além de principais jogadores, quantidade;
    • Objetos essenciais do game: definição dos personagens, armas, estruturas de gameplay, feedback de informações ao jogador;
    • Conflitos e soluções: definição dos principais desafios do jogador, interações relacionadas aos conflitos;
    • Inteligência Artificial: definições dos NPCs (Non Player Characters), ou seja, personagens controlados pelo computador, como reagirão, tomarão decisões, dificuldades e variações na IA etc.
    • Fluxo do game: estrutura de níveis, controles, menus etc;
    • Variações de jogo: abrange qualquer variação prevista na experiência do gameplay;
    • Definições: dos termos utilizados no game design;
    • Referências: de jogos utilizados como inspiração, materiais escritos, imagens etc.

Alguns também utilizam o documento de arte para registrar como ela será no game. Eu sempre deixei essa etapa por conta dos designers ou diretor de arte, mas sempre, claro, acompanhando e negociando junto com eles os detalhes.

É importante lembrar também que o game design document é vivo, ou seja, o game designer constantemente vai revisá-lo, corrigi-lo e acompanhar a sua execução para que esteja saindo como o planejado, inclusive fazendo versionamentos dele.

Prototipagem de Papel - Game

Eu gosto de utilizar documentos wiki para isso, pois fica prático e fácil de arrumar para isso, mas cada game designer tem o seu estilo de documentação.

Protótipos são sempre bons para avaliar o projeto, mas muitas vezes um bom protótipo de papel (como esse da foto) é melhor que se matar codificando uma parte do game, mesmo com auxílio de game engines. Nessa hora, o game designer tem que julgar o que terá qualidade e eficiência para atender o que ele deseja verificar com esse protótipo.

Referência Principal:

  • Schuytema, Paul. Design de games: uma abordagem prática. São Paulo: Cengage Learning, 2008.
  • Imagem do Mapa Metal do Livro A Arte de Game Design – Jesse Schell.

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira (Editor-Chefe) – Formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Pós-Graduado em Docência para Educação Profissional, MBA em Game Design e Mestrado em Tecnologias da Informação e Comunicação. Foi redator do portal Nintendo Blast, professor de cursos técnicos e Game Designer/Sócio-Fundador do estúdio Céu Games por 6 anos. Atualmente, é professor de jogos digitais e escritor.

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