Artigo: Jogos Educativos: aprender de forma divertida

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Alguns chamam de edutainment, mas esse universo é bem mais amplo como pode ser visto na imagem. Dentro dele, estão os jogos no ensino. Eles já existem há muito tempo, mas com o advento dos computadores, tornaram-se digitais, proporcionando a educação um novo recurso didático ao aprendiz.

Convido você hoje a conhecer sobre jogos educativos, ou mais especificamente, didáticos. Podemos entender o que são com termos mais precisos, as preocupações com o seu desenvolvimento, mas também quais vantagens de se utilizar esse método e exemplos de algumas aplicações.

Divertir e educar pode ser a união que você precisa para tornar sua aula mais interessante.

Todos são jogos educativos

A frase é bastante forte, mas o sentido que me refiro é que, mesmo aquele jogo que foi criado sem a intenção de ensinar (jogos de entretenimento), também pode promover uma aprendizagem ao interagir com ele.

Segundo João Bittencourt e Esteban Clua, no artigo “Uma nova concepção para a criação de jogos educativos”, hoje o termo mais correto é jogos didáticos para aqueles que realmente foram criados para ensino ou aprendizagem. Os outros, jogos de entretenimento, não tiveram essa intenção, mas podem ajudar o aprendiz a desenvolver habilidades como enfrentar situações-problema, construir argumentação, compreender interações entre organismos e ambiente, além de identificar padrões e processos relacionados ao conteúdo em questão.

O diagrama acima, dos mesmos autores, ajuda a esclarecer essa diferença entre jogos de entretenimento e didáticos, ambos educativos. Ambos são jogos educativos.

Eu mesmo, como professor, já utilizei as duas práticas: criar um jogo para promover aprendizagem (Jogo tradicional Detetive Virtual – informática para adolescentes) e utilizar um já existente com o mesmo objetivo (Monopoly Deal – educação financeira). Bem conduzidos, com um planejamento claro e reflexão realizada pós a atividade, engajam muito mais o aluno ao aprendizado do que o método tradicional de aulas expositivas. Fiz o experimento em minha pós-graduação e de fato, funcionou muito melhor. Pode não reter todos, mas a maioria você consegue de forma mais fácil. Também depende do perfil de aluno, mas quando falamos de nativos digitais, ajuda bastante (conceito de Prensky, mas está mudando). Foram todos jogos tradicionais, mas que facilmente podem ou já foram levados ao eletrônico.

Educar sim, mas divertir também

Muitas iniciativas de jogos didáticos são muito legais, mas todo jogo tem que ter diversão. Tem que dar aquela vontade de competir, o gostinho de vitória. É uma característica fundamental no desenvolvimento de qualquer game, mesmo os didáticos. Raph Koster, autor do livro Teoria da Diversão para Projetos de Jogos (Theory of Fun), demonstra que o jogador somente continua tendo divertimento caso ele esteja aprendendo com o jogo, ou seja, ele deve ter aprendizado do início ao fim. Essa forma de aprender é quanto a um novo recurso no jogo, um novo desafio ou um puzzle mais desafiador que os anteriores. Senão, o jogo torna-se entediante (nada novo para se aprender) ou frustrante (aprendizado não segue uma escala de dificuldade). Mantê-lo longe desses comportamentos, significa deixar o jogador no canal de Flow (imagem nessa fonte também), teoria do psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, cujo objetivo é manter o jogador interessado no game sempre. A teoria também tem outras aplicações além de jogos.

Dessa forma, o jogo didático deve ser pensado quanto ao conteúdo de aprendizado, mas também a diversão. Tenho visto muitos jogos que focam demais na aprendizagem e se esquecem de serem divertidos, ou vice-versa. Uma pena e mais um recurso didático utilizado ou criado de forma inadequada.

Por que usar jogos didáticos?

Patrick Moratori, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro, desenvolveu uma pesquisa justificando o porquê de se utilizar jogos didáticos no ensino. Ele listou diversos benefícios:

  • fixação de conceitos já aprendidos de uma forma motivadora para o estudante;
  • introdução e desenvolvimento de conceitos de difícil compreensão;
  • desenvolvimento de estratégias de resolução de problemas (desafio dos jogos);
  • aprender a tomar decisões e saber avaliá-las;
  • propicia o relacionamento de diferentes disciplinas (interdisciplinaridade);
  • participação ativa do estudante na construção do seu próprio conhecimento;
  • socialização entre estudantes e a conscientização do trabalho em equipe.

Além disto, ainda podem contribuir no desenvolvimento da criatividade, de senso crítico, da participação, da competição “sadia”, da observação, das várias formas de uso da linguagem e do resgate do prazer em aprender.

As atividades com estes jogos podem ser utilizadas para reforçar ou recuperar habilidades de que os estudantes necessitem, além de permitir ao educando identificar e diagnosticar alguns erros de aprendizagem, as atitudes e as dificuldades dos estudantes.

Quero desenvolver jogos didáticos. Como faço?

Alguns autores nos trazem alguma ajuda quanto a isso por meio de diretrizes. Inclusive, recomendo fortemente suas publicações. João Mattar, em sua publicação “Games em Educação – Como os Nativos Digitais Aprendem”, primeiro recomenda verificar se o desafio proposto pelo jogo didático é tão estimulante ao jogador quanto um game de entretenimento puro. Senão, o aprendiz vai jogar outro. Depois, reforça que não se deve pensar no design do conteúdo, mas sim em planejar experiências e ambientes que façam o aprendiz ter que tomar decisões, além de refletir sobre aquelas já tomadas. Outra característica fundamental é a avaliação, ou seja, uma forma de medir o desempenho do aprendiz no jogo.

Já Leandro Costa no livro “O que os jogos de entretenimento têm que os educativos não têm” elaborou 7 princípios para um jogo com fins didáticos

  1. Deve possuir uma estrutura semelhante ou comum à estrutura do objeto do conhecimento;
  2. A estrutura do jogo deve ser perceptível ao jogador enquanto jogar;
  3. A aprendizagem dessa estrutura deve ser indispensável para atingir os objetivos do jogo;
  4. Tudo deve estar a favor do entretenimento, da diversão;
  5. O objeto de conhecimento tem que estar aliado ao jogo a que pertence por relações estruturais essenciais, mas também promovendo a diversão e entretenimento dos jogadores;
  6. No que depender do objeto de conhecimento, deve ser uma forma essencial de jogo;
  7. Deve ser, pelo menos ao seu público-alvo, melhor como jogo do que qualquer uma de suas partes ou a soma delas.

Com essas diretrizes, nossa forma de criar um jogo didático pode ter um auxílio e minimizar erros perante diversão e aprendizado. Também veja quanto os autores reforçam a diversão nesses jogos. Isso mostra que diversão pode trabalhar assuntos sérios como a educação.

Casos de jogos didáticos que deram certo

Existem diversas iniciativas de jogos que tem a intenção de divertir e educar.  O Biocautus, jogo para aprendizagem de biossegurança, foi um dos jogos que projetei e acompanhei o desenvolvimento de perto. Criamos um mix de alternativas para o jogador aprender o mesmo assunto, não se limitando apenas a jogos de perguntas e respostas, um dos famosos clichês de jogos didáticos. O jogo certamente pode melhorar ainda mais, porém com experimentos percebemos que o pessoal realmente se diverte e aprende sobre as condutas corretas dentro de um laboratório de pesquisa e saúde. Afinal, essa era a principal intenção do educador de promover dentro do jogo. Consideramos esse game ideal para reforço dos assuntos de biossegurança, ou seja, um acesso a outras referências sobre esse assunto.

Tríade é um jogo didático para o assunto da Revolução Francesa. Foi uma iniciativa bem interessante de se trabalhar esse fato histórico dentro de um ambiente eletrônico. Tiveram diversos desafios e publicações sobre o desenvolvimento, mas o resultado em termos de diversão e aprendizado foi muito bom. Ao desbravar o jogo, o aprendiz consegue entender esse contexto por meio de interações e roteiro da história.

A Jornada do PI considero um dos melhores jogos em termos de diversão e aprendizado. Eles conseguiram integrar bem o assunto aos mecanismos do jogo, de forma que o aprendiz realmente entenda cada universo do conjunto dos números: reais, inteiros, racionais e irracionais.  Basta pegar o número na cesta certa: se for real, cesta dos reais, e assim por diante. Tem uma narrativa e um desafio bem divertido a cada nível. O aprendiz aprende sem muitos textos e aulas. Apenas com a didática dos níveis criados, o jogador já aprende cada conjunto e, no final, faz uma espécie de provação, com todos eles misturados. É uma forma de síntese dos assuntos vistos e avaliação.

Muitos dos jogos do mercado começaram com muito foco no conteúdo, pouco no entretenimento ou vice-versa. O que pode se perceber é que deve haver equilíbrio entre ambas as partes. Dessa forma, o jogo didático pode ser mais um recurso didático para promover aprendizagem, principalmente para uma Geração Y (ou já se falando na Z) que já nasceu com um computador no seu berço e ao nascer já tem perfil nas redes sociais. Será exagero? Eu já vi um perfil assim, mas claro criado por pais de outro planeta (brincadeira).

Referências

  • COSTA, L. D. O que os jogos de entretenimento têm que os educativos não têm: 7 princípios para projetar jogos educativos eficientes. Rio de Janeiro: Ed. PUC-Rio, 2010.
  • CLUA, E. W. G; BITTENCOURT, J. R. Uma nova concepção para a criação de jogos educativos.  Simpósio Brasileiro de Informática na Educação 2004 (SBIE). Mini-curso.
  • KOSTER, Raph. Theory of Fun for Game Design. Paraglyph Press, 2004.
  • MATTAR, João. Games em educação: como os nativos digitais aprendem. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010.
  • OLIVEIRA, Fabiano Naspolini de. Jogo Didático de Informática como Atividade de Aprendizagem por meio de uma Metodologia para o Desenvolvimento de Competências. Trabalho de Conclusão de Curso – Senac, 2012.




Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira (Editor-Chefe) – Formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas (Udesc), Pós-Graduado em Docência para Educação Profissional (Senac), MBA em Game Design (Universidade Positivo) e Mestrado em Tecnologias da Informação e Comunicação (UFSC). Foi redator do portal Nintendo Blast, professor do Senac/Senai e Game Designer/Sócio-Fundador do estúdio Céu Games por 6 anos. Atualmente, é professor de jogos digitais e escritor.

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