Artigo: Narrativas nos Jogos Digitais: a arte de contar histórias com interação

Sam e Max - Jogo com Narrativa InteressanteContar histórias é uma arte e está presente na nossa cultura há anos. A inserção das narrativas ocorre por meio da conversa do dia a dia, livros, histórias em quadrinhos, televisão, cinema, teatro e também dos jogos digitais.

Vou apresentar algumas particularidades delas nos games, além de passar algumas diretrizes de autores e minhas sobre como criar histórias para esse meio. Assim, você consegue mais êxito para ter jogadores imersos na sua narrativa.

 

A interação e as narrativas nos games

A Jornada do HeróiMuito da base que existe para se tratar narrativas são oriundas da literatura. As noções de construção de um personagem, enredo, trama são conceitos aplicados também nos roteiros para games.

O mesmo ocorreu com as práticas do cinema, histórias em quadrinhos e outros meios de contar histórias: os jogos digitais incorporaram essas boas técnicas para promover uma melhor contação de histórias.

Já discutimos sobre os primeiros jogos, seu foco na mecânica e evolução das narrativas, além de uma proposta de estruturá-las chamada “A Jornada do Herói”. Todavia esse é apenas o início de uma história para os games.

Planejamento da Narrativa de JourneyDevemos lembrar que o protagonista é o nosso jogador e suas interações influenciam e muito no decorrer da história. Quando se pensa em roteiros para games, primeiro tem que se lembrar que a interação é o ator principal. As cutscenes e narrativas vêm apenas para dar um complemento, trazer imersão ao jogador naquela narrativa em pontos estratégicos da história. Assim, ele entende melhor o contexto de mundo que está inserido em sua jornada. As narrativas tradicionais são meios passivos e esperam que nós só assistamos aquela história. Com os jogos, isso tem que ser diferente.

Outro detalhe é que as narrativas tradicionais são totalmente lineares. Com os jogos, as ordens dos acontecimentos podem mudar, dependendo da abordagem que o jogo utiliza. Caso opte por um jogo bastante não-linear, tenha um planejamento claro com os trajetos possíveis de realizar, eventos, ações que geram quais consequências etc. Um fluxograma, ou outra estrutura que mostre as diversas possibilidades, ajuda bastante a organizar.

 

Os elementos narrativos dos jogos digitais

A autora Jeannie Novak faz uma lista de alguns elementos que são peculiares dos jogos digitais: a interatividade, não linearidade, controle pelo jogador, colaboração e imersão.

  • Interatividade: os jogadores colaboram com a narrativa por meio da interação. Logo, ela é mais uma coluna dentre as outras no roteiro – texto, imagens e planos, sons – que devemos pensar;
  • World of WarcraftNão linearidade: os jogos têm a característica de não ocorrerem sempre da mesma forma como um filme ou livro. O jogador pode escolher sua ordem ou suas decisões levarem o curso de uma história para outra vertente;
  • Controle pelo jogador: os jogadores manipulam o jogo, influenciam naquela história diferente de outras mídias. Essa liberdade que será dada a ele tem que ser bem pensada para gerar imersão;
  • Colaboração: todos juntos para fazer acontecer àquela história. Jogar com amigos ou até mesmo em jogos massivos online faz a narrativa algo muito interessante. Lembram os RPGs de mesa onde cada um fazia a sua parte para que o desafio da história fosse vencido? Jogue games como WoW (World of Warcraft) e verá isso na prática;
  • Imersão: fazer o jogador se engajar naquela história, comprar mesmo aquela aventura que o herói busca é a melhor forma de deixá-lo imerso. Mas vai de como você conduz essa história e jogo.

 

Como redigir histórias para jogos digitais?

Aqui vou contar um pouco da minha experiência e trazer algumas dicas de outros autores que constam nas referências desse artigo.

Dragon QuestQuem será o herói da sua jornada? É importante que ele gere uma identificação com o jogador. Muitos jogos como Dragon Quest até fazem com que ele não tenha falas. Isso é para as pessoas que jogarem sentirem-se mais parte daquela história, como se fossem aquele personagem. Defina também o porquê da luta dele nessa jornada, o mundo medíocre que ele vive que o instiga a buscar a aventura, seu passado, perfil físico e psicológico, tanto qualidades quanto defeitos. Só que tenha coerência do início ao fim da sua história e pense como o personagem. O que ele faria nessa situação? Como agiria?

Qual o desafio que ele vai enfrentar? Desafios simples enfrentamos todos os dias. Ele deve ser grandioso para instigar ainda mais nosso jogador. Também é necessária uma transformação do herói durante esse processo da jornada. Ou talvez ele não aprenda e repita tudo, típico de continuações. Ele vai enfrentar um vilão? É uma busca por autoconhecimento? Defina bem isso e crie algo que ele precise se superar de verdade para realizar.

Mostre a luta por atingir o objetivo. Faça-o falhar algumas vezes, vencer outras. Esse processo de evolução precisa ser mostrado. O jogador contribui para isso. Vencer por um triz também é interessante às vezes.

Super Mario Bros salvando a PeachQual o fruto por trilhar essa jornada? Ou seja, qual o retorno com o elixir? Não ter mais medo de altura ou conquistou seu grande amor ou salvou a princesa ou o mundo? Pense no que ele tem a ganhar com isso.

Planeje a trama. Pense nos pontos que vai deixar o jogador saber, outros secretos, os vários trajetos que a história pode tomar de acordo com as decisões do jogador. Mas claro: reveja sempre que possível. Eu sempre digo que uma boa história sempre tem duas, na verdade: uma que o jogador conhece e outra desconhecida que vamos só dando pitadas ao longo da trama para depois se revelar.

Faça rascunhos, revise a história e peça a ajuda de outros especialistas. Nada como botar em prática, escrever sem ser crítico naquele momento. Não interrompa o fluxo criativo que está tendo ao escrever para analisar ou ficar preocupado com a norma culta. Deixe isso para depois. De preferência, não faça a revisão em seguida que terminou a escrita. Achamos mais erros e pensamos melhor quando deixamos de molho o que estávamos imersos trabalhando. Vá fazer algo que goste diferente do roteiro e volte depois. Consulte outras pessoas e capture suas impressões. Eles não estão dentro do furacão de ideias suas e podem trazer visões diferentes.

Sem prolixidade. Ou, como diz o popular: enchição de linguiça. Isso acaba com o interesse pela narrativa e o jogador vai cansar. Foque nos temas mais importantes, acontecimentos que realmente agreguem a trama.

 

Esses são alguns itens a serem pensados dentro de uma narrativa para jogos digitais. Recomendo que busque diversas fontes voltadas para cinema, história em quadrinhos, literatura e específicas de storytelling para games. Mas, claro, bote em prática porque só ficar na teoria não adianta. Suas primeiras histórias vão parecer simples, porém bebendo de várias fontes e praticando, você vai se tornando mais robusto na arte de contar histórias nos games.

 

Referências

Novak, Jeannie. Desenvolvimento de Games. São Paulo: Cengage Learning, 2010.

Schuytema, Paul. Design de Games: uma abordagem prática. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira (Editor-Chefe) – Formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Pós-Graduado em Docência para Educação Profissional, MBA em Game Design e Mestrado em Tecnologias da Informação e Comunicação. Foi redator do portal Nintendo Blast, professor de cursos técnicos e Game Designer/Sócio-Fundador do estúdio Céu Games por 6 anos. Atualmente, é professor de jogos digitais e escritor.

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