Artigo: Personagens em Jogos Digitais: gerando identificação com o jogador

Personagens de GamesVocê já controlou muitos personagens em jogos digitais ou combateu muitos deles. Alguns ficaram na memória pelo seu carisma, outros pela história marcante, pela personalidade ou tudo isso junto.

O fato é que a criação de personagens deve ser pensada com cuidado, pois o movimento de toda a narrativa em um game – e até mesmo do jogo em si – se dá graças a eles e suas interações.

O artigo traz um pouco da teoria e algumas recomendações adquiridas da minha experiência e de alguns autores. O foco aqui é mais na essência dele, ok?

Pegue o seu avatar e vamos viajar nesse universo dos personagens!

 

Tipos de Personagens nos Jogos Digitais

SonicExistem algumas classificações para os personagens e uma delas vimos no artigo sobre os arquétipos da abordagem de “A jornada do herói”. Todavia quanto aos jogos digitais, podemos encontrar dois tipos: aqueles controlados pelo jogador (avatar); e os não controlados, também chamados de NPCs (non-player character).

O primeiro grupo considero fundamental, pois são personagens que estão muito próximos do jogador. Gerar um personagem com personalidade, boa história e carisma são fundamentais para engajar e convencer o jogador no game. Bons personagens ficam na memória dos jogadores e, muitas vezes, nem sequer falam nada no jogo. Nesse tipo de situação, lembro bastante da criação do Sonic. Ele não falava, mas trazia uma personalidade rebelde nas suas atitudes, no visual, no conceito de agilidade também, ou seja, atributos que empolgavam o jogador e que faziam com que ele se identificasse com aquele herói. Ainda mais que era uma época em que estavam cansados de heróis perfeitinhos como o Super Mario, apesar de sua aparência física não ser a de um Hércules.

War IIIClaro que essa profundidade, nesse tipo de personagem, depende muito do jogo, pois se for estratégia, tropas são personagens mais superficiais e não vão gerar tanta identificação assim. Algo interessante que Warcraft III criou, nesse sentido, foram os heróis. Eles sim trazem esse conceito e dão mais profundidade aos personagens avatares.

Já o segundo tipo de personagens em games, os NPCs, são gerenciados por meio de inteligência artificial. Eles são aqueles que vendem produtos nas lojas, levam uma mensagem ou estão como inimigos que estão ali para te atrapalhar mesmo. São fundamentais e devem ser pensados na sua forma de aplicação no jogo, dentro de um contexto. Também devem ser um pouco espertos para passar uma sensação de que não são tão artificiais assim.

 

Construção de Personagens para Jogos Digitais

Personagem - Artigo abaixo da postagem“Como construir personagens?” é uma pergunta complexa, visto que os caminhos são inúmeros e as variáveis a serem trabalhadas também. Aqui vou focar mais em aspectos de roteiro textual que depois virariam desenhos, modelagens e outros.

O primeiro passo é contar a história desse personagem como, o seu passado, experiências que viveu, nascimento, criação, ambientes que passou para justificar o que ele é hoje. Depois, a sua personalidade e caráter, pois elas também são frutos dessas experiências. Outro fator importante são as pessoas que estão à sua volta, afinal influenciam também. Essa listagem foca em aspectos mais intrínsecos.

Outro enfoque são os aspectos extrínsecos como físico, raça, roupas, cores, nacionalidade e outras características mais visuais e menos psicológicas. É importante reforçar também essa abordagem, pois muito do aspecto visual do personagem vai dizer sobre ele como, por exemplo, ele é despojado, alegre, gosta de música, passou por muitas guerras – cheio de cicatrizes – e outras características interessantes que contam um pouco sobre o personagem só no primeiro olhar.

 

Papéis e Desenvolvimento do Personagem nas Narrativas

Final FantasyAs histórias, independente dos jogos digitais, definem alguns papéis nas narrativas dos personagens: protagonistas (principais); antagonistas (se opõem ao protagonista); coadjuvantes (fazem o elo entre os dois para fazer andar a trama); e coprotagonistas, estes apoiando o personagem principal na aventura que ele irá enfrentar.

Em jogos de RPG isso é muito comum até pela profundidade da narrativa desses games. Pegue qualquer Final Fantasy que verá essa estrutura claramente nos personagens. Não faltarão coprotagonistas para você comandar.

Outro ponto importante é pensar em como contar essa evolução do personagem por meio de marcos. Eles representam esses marcos, indicando cada evolução dele, desde o seu lado interior, até chegar a sociedade que ele pertence e sua autoafirmação perante aquele mundo.

Outro fator importante é o triângulo dos personagens. Como será o embate entre antagonista e protagonista? Como o coadjuvante agirá para fazer a trama se movimentar deixando a história interessante ao jogador e mexendo com o antagonista e protagonista?

Importante no campo das narrativas em games atuais: histórias que deixam o jogador tomar decisões como se fossem o avatar são muito bem-vindas nesse contexto apresentado aqui. Gera empatia entre jogador e personagem.

 

Trabalhando com Pontos de Vista

Batman Arkham AsylumPoint of View é realmente saber como contar a história sob a ótica de um personagem. Filmes e desenhos fazem isso com maestria. O Rei Leão ½ brinca muito com isso, contando a história do primeiro desenho sob o ponto de vista do Timão e Pumbaa, e não um narrador em terceira pessoa que só observa.

Em jogos, trazer esse ponto de vista para o jogador é muito bom. Câmeras em primeira pessoa já trazem muito desse conceito de imersão. Entender a história, sob a perspectiva de um personagem ou de vários alternados são estratégias que funcionam muito bem. Senti muito essa imersão em Batman Arkham Asylum no momento que as ilusões do Espantalho fazem efeito. O jogo de câmeras e o ponto de vista do Batman te envolvem de uma forma que não tem como não mexer com seus medos.

Toda pessoa que quer escrever boas histórias e experiências inesquecíveis com seus personagens deve dominar essa técnica.

 

 

A construção de personagens é muito complexa. Basta mencionar que não falamos de aspectos visuais, formas de diálogos que eles podem ter, movimentos de animação, planos de câmeras e outros atributos, pois cada um deles rendem outros artigos que você terá aqui no Fábrica de Jogos. Esse é um texto inicial para abrirmos para outras discussões interessantes. Recomendo o Capítulo do Livro da Jeannie Novak sobre Personagens. É muito completo e rico em outros detalhes não abordados aqui.

 

Referências

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira (Editor-Chefe) – Formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Pós-Graduado em Docência para Educação Profissional, MBA em Game Design e Mestrado em Tecnologias da Informação e Comunicação. Foi redator do portal Nintendo Blast, professor de cursos técnicos e Game Designer/Sócio-Fundador do estúdio Céu Games por 6 anos. Atualmente, é professor de jogos digitais e escritor.

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