O Setor de Jogos Digitais no Brasil

A pedidos de leitores, fui investigar fontes para obter informações sobre como está a nossa área de desenvolvimento de jogos digitais.

A maior parte são fontes oficiais e bons levantamentos que já mencionei no blog em outras postagens; outras nem tanto e algumas citavam essas fontes oficiais. Ou seja: melhor usar a original.

Nesse sentido, vamos dar uma olhada em tudo que reuni, alguns comentários acerca do tema e tentar ajudar a entender alguns assuntos sobre o cenário nacional da área.

O Mercado Nacional

O BNDES publicou, em estudo de 2014, um gráfico sobre a participação dos continentes na indústria de games. Ele foi baseado em PWC (2012). Veja os resultados:

participacao_regioes_videogame_2010

Ocupamos 2% do valor desse mercado. É um valor baixo, mas são dados de 2010. Isso mudou certamente. Importante ressaltar que esse gráfico avalia diversos projetos. Jogos AAA dão grande peso a balança para outros continentes. Produções milionárias ainda falta vermos aqui com mais frequência.

Também se demonstra, nesse mesmo estudo, um mercado promissor no Brasil em termos de jogos casuais, móveis e sociais. São oportunidades que observamos no dia a dia devido a facilidade de acesso (a venda de smartphones é alta) e preço baixo. São mercados de massa e podem ser explorados, além daqueles de jogos sérios (serious games).

 

O público consumidor de Jogos Digitais

Sobre o público de jogos digitais, o SEBRAE tem um estudo em 2014 que traz os seguintes dados abaixo:

Perfil_gamers_sebrae_2014

A pesquisa se baseia em diversas fontes. Interessante notar que o Sudeste é uma das área de maior destaque. Isso justifica os diversos cursos, empresas e eventos que já ocorrem lá.

O tempo médio semanal de partidas de jogadores é 2 horas. Considero baixo, mas, pensando, o público consumidor pode trabalhar. Sobra pouco tempo para isso, pensando ainda em dormir e outras atividades.

Também aponta que 23 de cada 100 brasileiros curtem games. O número já considero relevante e pode ainda ser maior. Considerando que a cultura precisa ser trabalhada no país, de maneira geral, esse percentual é significativo.

Quanto ao sexo está equilibrado, mas se deve filtrar qual tipo de jogo é jogado por homens e mulheres e outras variáveis. Isso define melhor público-alvo e como as empresas podem atacar o mercado.

Para complementar isso, o censo feito pelo BNDES aponta que 51% das mulheres que jogam são pertencentes à classe A, tendo idades entre 40 e 49 anos. Entre elas, 55% são jogadoras casuais, 77% jogam em redes sociais. Dentre as casuais, 59% jogam diariamente e preferem jogos de cartas.

Também o mesmo estudo aponta um público consumidor de games na faixa de 45 milhões. Ou seja, gente interessada existe nesse tipo de produto.

Alguns dados são muito gerais, em resumo, e precisariam ser mais lapidados para se ter algumas conclusões melhores. Mas já é um início para compreender a indústria, não?

 

Empresas de Jogos Digitais

O estudo do BNDES e algumas análises do SEBRAE trazem conclusões interessantes sobre as empresas. A pesquisa consultou 129 empresas, dando um ranking dos estados com mais concentração delas: 1) São Paulo; 2) Rio Grande do Sul; 3) Rio de Janeiro; e 4) Santa Catarina. A justificativa são as ferramentas de desenvolvimento, acesso à internet fácil e oportunidades para acontecer os negócios nessas regiões (recursos, incubadoras tecnológicas etc).

Os faturamentos deles estão descritos abaixo:

bndes_ganhos_empresas_Games_2014

Percebe-se, segundo o SEBRAE, que as empresas são de pequeno porte, devido ao faturamento de até 240 mil ser maioria. Também que as empresas tem 1 a 5 anos de funcionamento. A longevidade delas, portanto, é baixa e o surgimento delas aumentou de 2009 em diante. Isso se justifica pela facilidade de produção de jogos mobile e web nesse momento.

Os problemas passados são falta de mão de obra qualificada e experiente no setor. Quando há, tem forte evasão de profissionais ao exterior para trabalhar em grandes estúdios.

Grande parte delas (80%) são focadas em desenvolver jogos. Já, as 20% restantes realizam outras atividades de desenvolvimento fora de games ou publicação de jogos (publisher).

Esse é o estudo mais recente dessas empresas e demonstra que há muito a se fazer. Nós sabemos que o empreendedor é bravo e, mesmo com adversidades, vai dar o jeito de buscar o seu espaço. Porém, um cenário mais favorável, certamente iria ajudar a reduzir a mortalidade das empresas, além de um faturamento melhor.

Há de se mencionar que não foram avaliados desenvolvedores independentes no processo, fator que cresce e muitas vezes produzindo sem CNPJ.

Caso deseja ver a lista de empresas, no final do documento consta todas elas. Acesse em nossas referências do artigo.

 

Desenvolvimento do Jogos Digitais

Os estudos do BNDES de 2014 analisaram games desenvolvidos em 2013 aqui no Brasil. Eles revelam um desenvolvimento maior de jogos de entretenimento (49,3%), seguidos pelos jogos educacionais (43,8%).

Em termos de sistema operacional, Windows, Android e iOS são aqueles com maior predominância de games desenvolvidos.

unity3dJá quanto a motores de jogos (engines), a Unity ocupa a 1ª posição e importante fatia de uso (79,7%), seguida por tecnologia própria (18%) e Cocos2D (13,53%). É, aproveite nossos tutoriais, pois Unity e Cocos2D temos vários. 😉

Para finalizar, no aspecto metodologia de desenvolvimento, o método SCRUM ocupa primeira posição (60,9%), seguido de nenhuma (25,6%) e PMBOK (11,3%). O nenhuma, considerando-se trabalhar em equipes maiores, é preocupante, principalmente se a empresa pensa em crescimento.

Os dados apresentam um profissionalismo crescente na indústria, muito uso de plataformas de desenvolvimento mais acessíveis financeiramente, além de foco em plataformas de PC e mobile. O número alto da Unity também se justifica pela facilidade de portar para várias plataformas, custo/benefícios de maneira geral.

 

Profissionais e Salários de Brasileiros nos Games

O estudo do BNDES (2014) traz um levantamento de 1133 trabalhadores no setor de jogos digitais. Entre eles, 392 são sócios e 741 são colaboradores. 85% são homens e apenas 15% mulheres. Mulheres são um público bem pequeno. Interessante observar que áreas são mais atuantes.

Quanto a salários, os estudos atuais não revelam nenhuma informação e os dados da ABRAGAMES são muito antigos nesse sentido. Mas, caso queira olhar, acesse-os aqui.

A única fonte que consegui nacional foi no site “Produção de Jogos”, mas não são citadas as fontes dos dados. Dessa forma, não irei apresentá-los aqui nem discutir. De qualquer forma, vale a pena dar uma olhada: Salários e Profissões Parte 1Salários e Profissões Parte 2.

 

Estudos em Jogos Digitais no Brasil

curso_games1A oferta de cursos para se capacitar em jogos digitais cresceu no Brasil. Segundo informações do MEC (inclusive você mesmo pode consultar por região lá), existem 72 cursos de graduação nível tecnológico no país específicos em jogos digitais, além de 16 especializações para esse mesmo segmento.

O site Game Reporter preparou uma lista deles, recomendando a todos também. Segue o acesso: GameReporter – Onde estudar Games no Brasil. Perceba também nos comentários algumas sugestões de outros cursos não mencionados na matéria.

Outra dica é o site do SBGAMES na seção “Grupos/Cursos de Jogos”.

Pode-se perceber que existem graduações e pós-graduações na área, também alguns cursos de qualificação também. Esse setor está bem aquecido de fato.

O que se recomenda é olhar bem a instituição, quem está lecionando, a experiência dele com desenvolvimento de jogos, pois cursos bons existem, claro, mas também há alguns que são muito caros e oferecem muito pouco. Vale a pena cuidar nesse sentido.

 

Iniciativas Governamentais

Algumas iniciativas de recursos por meio de concursos e editais são realizados pelo governo. Lembramos de alguns já feitos, além de linhas de financiamento. Mas sabemos que ainda precisa ser feito mais no sentido de realmente fomentar a indústria aqui.

Atualmente, fala-se de um Grupo de Trabalho para o Setor de Games. Pode ser um avanço e que realmente essa situação continue melhorando.

Afinal, o estudo do BNDES tem as mesmas diretrizes de outro já feito pela ABRAGAMES 10 anos atrás.

 

Associações

igda_llogoAlgumas das associações que você pode conhecer do nosso setor no Brasil:

Todas elas ajudam em interesses da categoria, promoção de eventos, reuniões de desenvolvedores e outros benefícios que interessam aos gamedevs nacionais.

A IGDA está em várias capitais do país, promovendo essas reuniões e eventos. Fique ligado nesse sentido, principalmente pelas redes sociais como Facebook (grupos IGDA).

 

Eventos

SBGames-logo-dark_redExistem vários eventos na área, mas vou destacar aqui o SBGAMES – Simpósio Brasileiro de Jogos e Entretenimento Digital devido a sua solidez por anos, além de abranger a área acadêmica e da indústria de jogos digitais. Esse ano está na 14ª Edição, ocorrendo no Piauí na cidade de Teresina.

Também se fala da BGS – Brasil Game Show que ocorre todos os anos em São Paulo. Ela tem um foco mais comercial, porém há espaço para indies demonstrarem seus games.

 

 

Existem muitas outras perguntas a serem respondidas no setor. Essas foram algumas variáveis investigadas e pensadas.

Percebe-se que a indústria de games evoluiu nesses 10 anos que já se passaram, mas ainda são necessárias muitas ações para crescer e se solidificar ainda mais.

Vejo também uma necessidade de se estudar desenvolvedores independentes no cenário nacional, mas sem registro de CNPJ. Creio que veremos muitos dentro dessa situação.

Caso tenha mais informações a agregar ou questionar, coloque para nós nos comentários, pois um conhecimento da área no Brasil é necessário para a sua valorização e reconhecimento.

 

Referências

Estas são as fontes principais do artigo. Secundárias foram apontadas ao longo dele.

  • BNDES A. I Censo da Indústria Brasileira de Jogos Digitais. Disponível aqui. Acesso em 12 de outubro de 2015.
  • BNDES B. Mapeamento da Indústria Brasileira e Global de Jogos Digitais. Disponível aqui.  Acesso em 12 de outubro de 2015.
  • SEBRAE A. Economia Criativa – Grandes Players e Pequenos Negócios de Games. Disponível aqui. Acesso em 12 de outubro de 2015.
  • SEBRAE B. Perfil das Empresas Brasileiras Desenvolvedoras de Jogos Digitais. Disponível aqui.  Acesso em 12 de outubro de 2015.

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira

Fabiano Naspolini de Oliveira (Editor-Chefe) – Formado em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Pós-Graduado em Docência para Educação Profissional, MBA em Game Design e Mestrado em Tecnologias da Informação e Comunicação. Foi redator do portal Nintendo Blast, professor de cursos técnicos e Game Designer/Sócio-Fundador do estúdio Céu Games por 6 anos. Atualmente, é professor de jogos digitais e escritor.

Send this to a friend