PlayReplay: O papel das mulheres dentro e fora dos games

Mesmo que este ano de 2016 ainda esteja novinho em folha, peço licença para trazer à tona um assunto bem antigo e que deve ser tratado com toda a importância e seriedade do mundo. Toda vez que teço comentários sobre meu interesse pelo mundo dos games e concluo dizendo que escrevo na internet sobre o que penso e/ou jogo, homens e mulheres reagem a isso de formas extremamente distintas.

A maioria das “minas” ficam felizes por mim, sentem curiosidade pelo conteúdo que abordo, mas, principalmente, formulam duas perguntas:

  • O que você faz para que os homens te concedam um espaço para falar sobre games?
  • Você é tratada com igualdade pelos homens?

Pare e reflita sobre o que está descrito nas entrelinhas desses questionamentos.

Em contrapartida, eles, na maioria das vezes, aparentam encarar o fato com mais serenidade e neutralidade. Não nego que, vez ou outra, escuto a pergunta “É mesmo?” acompanhada de tons desconfiados ou cheios de descaso. Quando isso acontece, eu começo a fazer as perguntas, pois me interessa muito saber o que esses homens pensam sobre a participação feminina neste universo tão amplo e unissex e o que as mulheres estão fazendo para minimizar esse tipo de comportamento masculino.

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A última Pesquisa Game Brasil realizada em 2015, fruto da parceria entre a Associação Comercial, Industrial e Cultural de Games (ACI Games) e o núcleo de Estudos e Negócios em Marketing Digital da ESPM, revelou que as mulheres são parte expressiva do público que declara jogar algum tipo de jogo eletrônico SIM – e a participação delas neste tipo de entretenimento e, consequentemente, mercado só aumenta. Dentre todos os participantes deste estudo que assumiram ser jogadores e jogadoras, 47,1% são mulheres (em 2013, o número já alcançava os 41%).

Somente com esses dados, já podemos concluir que não faltam mulheres que apreciam jogos, não é mesmo? E se elas são praticamente metade dos consumidores, levanto agora uma pergunta crucial: também há certo equilíbrio entre a participação masculina e a feminina durante a produção e desenvolvimento de games no Brasil, ou seja, antes dos jogos se tornarem jogos, nos bastidores? Infelizmente, a resposta não é positiva como eu gostaria. Nesse ponto, os profissionais envolvidos neste mercado são predominante do sexo masculino.

Sinto desapontar aquelas que pensam o contrário, mas acredito que a responsabilidade sobre essa realidade não cabe somente aos homens. Pelo contrário: ela está diretamente relacionada a todas nós, mulheres.

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Ainda conheço várias jogadoras que:

  • precisam criar avatares masculinos para jogar online de forma pacífica;
  • se sentem menosprezadas por serem representadas em grande parte dos jogos e grandes títulos por personagens semi-nuas que a transformam em meros objetos ao invés de pessoas;
  • jogam partidas com jogadores ouvindo que eles irão “aliviar” seu desempenho para “jogar com igualdade” ao lado delas.

Para mudar tais comportamentos culturais, nós, meninas, precisamos praticar o DIY (ou “Do It Yourself“), ou seja, produzir conteúdos de diversas naturezas para demonstrar e provar que também sabemos e gostamos de nos divertir (seja escrevendo sobre suas partidas, publicando livros, estudando mecânicas de jogos e compartilhando o conhecimento adquirido, criando canais no youtube ou trabalhando efetivamente no projeto de um jogo), afinal, por ser uma mudança de caráter cultural, o resultado só aparecerá a longo prazo.

Digo o mesmo para aquelas que trabalham com jogos. E aqui enxergo como os homens podem nos ajudar. É essencial que eles nos encarem como pessoas acima de tudo e, consequentemente, concedam oportunidades para as profissionais do mercado, tanto para trazerem suas experiências e pontos de vista como reais jogadoras que são quanto para trabalhar na criação e back-end dos jogos. É claro que a busca feminina de forma independente pela conquista de vagas como criadoras e desenvolvedoras de games é fundamental, mas isso não exclui a importância que a atitude masculina pode ter no meio do caminho.

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Anita Sarkeesian é crítica de mídia e possui um canal no Youtube intitulado Feminist Frequency que, como o próprio nome diz, contém vídeos cheios de pura reflexão sobre como a imagem e a personalidade feminina são retratadas em jogos, livros, filmes… Anita é famosa na internet por ser uma das grandes defensoras da igualdade entre a representação de homens e mulheres na mídia.
No vídeo abaixo – o meu preferido -, ela analisa e cita alguns jogos para explicar como “as escolhas de ângulos de câmeras e roupas feitas por alguns designers impactam diretamente em como os jogadores se relacionam com os personagens de seus jogos“:


Em resumo, as personagens femininas sempre estão vestidas com roupas grudadas ao corpo ou curtas e aparecem nos jogos altamente vendáveis através de ângulos que enfatizam seu corpo e suas partes íntimas. Os personagens masculinos não são tratados da mesma forma: eles possuem algum tipo de roupa complementar que não os deixa descobertos, sendo que algumas imagens nem ao menos mostram seus corpos da cintura para baixo.

Conclusão: a visão sobre as personagens femininas é totalmente enviesada desde a concepção comprometendo seus significados e funções nos jogos.

Solução: claro que não é tirar roupa dos personagens masculinos. É necessário que “o público sinta simpatia por elas por serem pessoasBasta tratá-las como pessoas.”

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O papel das mulheres nos games (tanto dentro quanto fora) é o mesmo que os homens têm. A razão é simples: nem homens e nem mulheres possuem qualquer motivo que seja para tratar um ao outro de forma desigual. As mulheres só precisam pegar o joystick com firmeza e se apropriarem do que fazem para jogar e trabalhar na área de games. Somente quando estiverem inseridas nestes contextos sociais e profissionais é que poderão trazer a igualdade e mudança que tanto querem.

Depois disso, precisam compartilhar sua atuação para inspirar e motivar mais mulheres ao redor do nosso país. Não é à toa que nomeei minha coluna semanal no PlayReplay como Estamina. É preciso deixar de ficar só reclamando e colocar mãos à obra para mostrar que podemos participar ativamente de tudo e dividir o espaço com eles!

Janai­na Pereira (PlayReplay)

Janai­na Pereira (PlayReplay)

Gamer desde o Alex Kidd do Master System II brasileiro até o Playstation, trabalha como Chief Dialog Designer para interfaces com foco em UX. É pós-graduada em roteiro audiovisual e seus jogos preferidos são os indies e os clássicos. Não vive sem literatura, séries, cinema, trilhas sonoras e um baralho na mochila! Ajuda o Fábrica junto ao Portal PlayReplay.

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